Precisamos falar sobre Pokémon GO

uma ponyta no meio do caminho; um drowzee na rua de casa; meu primeiro ginásio

Eu fui uma daquelas crianças que cresceu assistindo a Rede Manchete e todo tipo de animação que deixaria o mundo-politicamente-correto-que-adora-interferir-na-educação-do-filho-dos-outros de hoje em dia, de cabelo em pé. Os desenhos da época, que depois da falecida tiveram de ser acompanhados no Cartoon mesmo, continham toda uma lista de corrompimento de criancinhas; armas, tortura, sangue, nudez, objetificação do corpo feminino, violência, violência e mais violência.

Pokémon, apesar de fofinho, não fugia muito a regra; um menino de 10 anos saía sozinho pelo mundo, capturando e aprisionando animais silvestres, para colocá-los em batalhas uns contra os outros, por seu benefício próprio. Pois é, qualquer defensor dos animais (eu!) ficaria escandalizado com a remota possibilidade de “incentivo”, mas eram os anos 90 e, graças aos deuses, ainda não existia Facebook, textão ou problematizações diversas. O resultado? A maioria das pessoas enxergava o anime como ele realmente era (um desenho, nada mais), e, no fim, acredite ou não, sobrevivemos.

justiça seja feita, o desenho também ensinava sobre amizade e a cuidar dos animais
justiça seja feita, o desenho também ensinava sobre amizade e a cuidar dos animais

Anos se passaram, as crianças cresceram, doaram suas figurinhas e brindes do guaraná caçulinha (;__;), e, por fim, abandonaram o sonho de se tornar um Mestre Pokémon. Tudo bem que jogos continuaram a ser produzidos, mas a vibe já não era mais a mesma, pelo menos não para muitos fãs antigos.

Foi aí que uma empresa chamada Niantic, juntamente com a já-meio-mal-das-pernas Nintendo, resolveram ressuscitar as criaturinhas em forma de um jogo de realidade aumentada para celular, no qual você pode sair pela sua cidade capturando pokémons virtuais.

Pra quê.

Eu já sabia que seria algo que eu gostaria muito de jogar, mais em nome dos velhos tempos, que pelas reviews não muito animadoras. De fato, depois que deixaram claro que não haveria batalha com pokémons selvagens, e que, mesmo as presentes no jogo, não seriam por turnos (como nos jogos clássicos), meu coraçãozinho murchou. Talvez não fosse dessa vez que eu relembraria meus anos catchin’em all.

Mesmo com essa pequena desconfiança, baixei o aplicativo no primeiro dia de lançamento. A ideia toda era sair de casa, então fui caminhando pelo condomínio, enquanto o jogo pedia para que eu escolhesse meu inicial. Já tinha ouvido falar das dificuldades de se encontrar espécies de água em lugares seco como Utah, então resolvi ir de Squirtle, me sentindo um tantinho traidora pela minha infância e meus anos como treinadora de Charmanders.

Inicial escolhido, prossegui a caminhada e, assim como Ash Ketchum da cidade de Pallet, encontrei meu primeiro Pidgey. Como que por instinto, lancei a pokébola, cruzei os dedos para o bichinho não sair, a pokébola deu uma tremidinha, ele não saiu.  Novo registro na sua pokédex, dizia o jogo, e me animei absurdo. Andei um pouquinho mais a frente, me deparei com um Rattata; mais uma pokébola lançada, mais uma mini torcidinha, e era isso, já estava apaixonada.

uma ponyta no meio do caminho; um drowzee na rua de casa; meu primeiro ginásio
uma ponyta no meio do caminho; um drowzee na rua de casa; meu primeiro ginásio

Pokémon GO mudou tanto a rotina aqui de casa que, eu, com minha carteirinha do clube de sedentários, agora saio para correr ou caminhar ao menos duas vezes por dia. De manhãzinha é uma caminhada mais leve até a praça, para abastecer meus itens no PokéStop, e, à noite, com o noivo, adquirimos o costume de sair por aí e descobrir novos parques e áreas verdes. Ele, que não acompanhou o desenho quando criança, já sabe o nome de, pelo menos, uns 20 bichinhos e seus “graus de raridade”. E ainda parte para a liderança na hora de lançar as pokébolas, “ah, deixa eu, Ká!”, enquanto o fisioterapeuta, que aconselhou caminhadas para melhorar suas dores nas costas, saltita de feliz.

só um dos pores do sol que jogar pokémon GO tem me proporcionado

Não só as melhoras no campo das atividades físicas, o jogo ainda possibilitou uma interação com desconhecidos que eu jamais teria em outra situação. Ou seja, fiz até amiguinhos ♥. Gente me puxando de lado no shopping para perguntar como o jogo funciona, gente dando dicas de onde eu posso encontrar determinada criatura, gente programando encontrinhos no facebook, gente que grita, no meio do parque, um pokémon que acabou de aparecer e faz todo mundo se juntar ali, com um objetivo bobinho, eu sei, mas leve e divertido. Quem conhece os americanos, e sabe o quão fechados eles são com estranhos, pode imaginar o quão inovador essa dinâmica do jogo acabou sendo.

O jogo tem pontos negativos? Tem. E esse artigo aponta exatamente os que me incomodam. Mas o jogo pode ser usado para o bem? Também. E esses são só alguns exemplos de como Pokémon GO está aumentando a incidência de amor na sociedade.

Não esqueça de usar protetor solar e levar uma garrafinha com água para suas caçadas. E aproveite, enquanto caminha, para usar o app Wooftrax, que faz doações para abrigos de animais baseado nas suas passadas :). Bora pegar todos!

2 Comentários

O que aconteceu aqui?

onlyafew

Uma das coisas que mais me apavoram nesse mundo blogueiro sempre foi a falta de privacidade. De 14 anos nessa vidinha, calculo, pelo menos, metade deles em sistemas fechados (saudades, livejournal), ou com posts completamente desatualizados, graças a um medão in?-justificado de me expor. Claro, existe ainda todo um histórico de bloqueio criativo, semestres puxados na faculdade e saco cheio de internet, mas só eu sei o quanto minha timidez virtual tem sua parcela de culpa nesses hiatus.

Eu nunca fui de divulgar o blog pessoal para colegas de trabalho ou “conhecidos”, inclusive sempre tomei o devido cuidado de evitar que algumas dessas pessoas chegassem até ele. Veja bem, acho lindo quem compartilha tudo nas redes sociais – se for canal do youtube então, nível de desprendimento ultra mega master que jamais vou alcançar nessa vida -, mas eu nunca me sentiria confortável sabendo que o mocinho do rh, ou a tia do ex-namorado, leram exatamente o que eu penso sobre as doutrinas sociais duvidosas que eles insistem em defender.

Na verdade, acho que estou sendo até superficial; essa questão vai muito além de convívio profissional barra liberdade de expressão. É, principalmente, poder impor limites no quanto os tais acquaintances sabem sobre você, e no quanto isso pode afetar suas relações sociais obrigatórias. Uma coisa são seus amigos, virtuais ou não, pessoas que você associou à sua vida por livre e espontânea vontade, lendo e dividindo experiências sobre vida amorosa e crises existenciais. Outra, bem diferente, são as pessoas que a vida impôs a você.

onlyafew

Bom, agora que você já está inteirado sobre meu leve pânico associado a privacidade & blogs pessoais, posso te contar exatamente o que aconteceu em uma tarde de terça-feira. Para resumir, aquela outra rede social fez o favorzão de mandar convite para curtir a página do blog assim, para todo mundo, sem filtros e sem minha permissão. Tá, não foi bem desse jeito, desconfio que tenha acontecido em um daqueles meus momentos super pacientes, de sair clicando OK para tudo quanto é aviso, mas ainda assim, por razões óbvias, não era minha intenção.

Depois de passar pelos 5 estágios do luto (isso porque estou suavizando o drama aqui), percebi que já estava mesmo descontente com a proposta do blog há algum tempo. Preferi fechar tudo e recomeçar, dessa vez usando meu antigo domínio, e voltando a ser o diarinho que me trouxe a esse mundo blogueiro em primeiro lugar. Mantive alguns dos posts impessoais, trouxe textos do antigo blogspot, dei um tapa no layout, e, em uma corajosa empreitada para vencer minha vergonhinha virtual, escrevi até uma dessas páginas Sobre mim.

Ainda quero falar sobre viagens, literatura, culinária e fazer resenhas, porém usando menos uma ótica impessoal, e mais minha própria perspectiva. Blogs de dicas são legais e tudo, mas minha paciência acaba quando a adaptação SEO friendly começa.

Em tempo, não fiz uma página na outra rede social para esse blog. Acho melhor assim.

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